


Pelo que observo nos atendimentos a adolescentes, existe muita solidão entre os jovens de hoje.
Todo
ser humano tem a necessidade de pertencer a um grupo cujas
regras sejam claras e que lhe permitam transitar por ele de
modo confiante e seguro. É importante que haja afinidades e
que o grupo desperte um estado de pertencimento.
Para o adolescente, embora com certeza necessite fazer parte
de um grupo de iguais, será a família o primeiro contexto
responsável por transmitir ao jovem esse sentimento de
acolhimento e de pertencimento.
Para que o adolescente fortaleça alianças fora de casa,
como parte de um processo natural de sua busca de
independência, ele necessita de um modelo familiar que
saiba lidar com mudanças e as perdas que se originam das
mesmas.
Costumo dizer que não posso dizer "adeus" se, na
realidade, não me sinto fazendo parte.
Será que a maioria dos jovens se sente parte integrante de
sua família, nos dias de hoje?
Em geral, as famílias se mostram perdidas ao ter que lidar
com o crescimento dos filhos, com o passar de valores
éticos e morais que incluam solidariedade, honestidade,
cooperação, bem como ao estabelecer regras claras e
justas para sua convivência.
Deparo-me freqüentemente com famílias superprotetoras que,
fruto de nossa época tão competitiva, perderam a bússula
do compartilhar e do dividir.
Os pais oscilam entre a permissividade e a rigidez,
tornaram-se guerreiros na busca pela sobrevivência e na
manutenção de seus empregos, salários e status.
Muitas famílias se esbarram em algum horário comum, em
alguma conversa sobre o baixo rendimento escolar ou a
redução de despesas. Algumas conseguem fazer uma
refeição com todos juntos, outras planejam uma viagem
coletiva no feriado...Mas, dificilmente compartilham seus
sentimentos e promovem intimidade.
Não param, muitas vezes, para questionar a qualidade de
vida e de convivência que adotam, esqueceram que podem
escolher...
Os pais de hoje, em grande parte, têm medo de ficar sem
seus filhos e constatar que o tempo passou e eles pouco se
relacionaram. Este é um dos fatores que gera um
significativo número de divórcios em famílias com filhos
adolescentes.
Casamento...Família...Vínculos...Como o adolescente de
hoje os percebe?
Tantas são as dúvidas e descrenças que o
"ficar" acabou ficando...
Hoje, não há um interesse pelo conhecer, por trocas
afetivas, já que "nada é para sempre".
Hoje, a relação de fidelidade e de amizade entre jovens do
mesmo sexo está
contaminada e ameaçada pelo ciúme censurado, que não pode
ser extravasado, perante o "ficar" instituído.
Antigamente,
duas
amigas eram cúmplices, quando uma delas estava interessada
num rapaz, mas, agora, existe o risco de que a amiga fique
com ele também.
E, embora sabendo das regras do jogo, não há como evitar a
angústia da traição, a ferida que contamina vínculos,
que gera solidão e medo ao se relacionar.
Vive-se o primado do individualismo, da falta de contato
verdadeiro, das relações inconstantes e imaturas que,
através da depressão, síndrome do pânico, anorexia,
bulimia e drogadição,
adoecem não só os adultos, mas também jovens adolescentes
solitários.
Elisabeth Salgado




 
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