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É interessante como o uso do dinheiro e a sua finalidade constituem um reflexo da maneira de encarar a vida e como nos relacionamos com os demais.

Tal fato fica ainda mais vidente quando trabalho com famílias, onde é comum que a moeda atue, despertando os mais variados sentimentos, como amor, inveja, compaixão, raiva, carência e necessidade de controle.

É fato: dependendo de como o dinheiro é utilizado, ele pode ser um símbolo de amor ou de violência.

Por acreditar nisto, escrevi este artigo cujo objetivo é possibilitar um momento de reflexão e melhor entendimento sobre como usar mais sensatamente o dinheiro em nossas vidas.

Comecemos por tentar responder a estas questões:

·       Qual é o significado do dinheiro em sua família?

·       O que e quanto você quer?

·       Por que desejo tanto dinheiro?

·       Por que você quer isto?

·       De onde vem minha necessidade de dinheiro?

·       Por que desejo sempre mais?

·       É para você mesmo ou para dar aos outros?

·       Quem deve a quem?

·       Quem é responsável pelo quê?

·       Você costuma conversar abertamente sobre dinheiro ou isto é um tabu?

No trabalho clínico, as respostas refletem as mais diversas situações. Vejamos algumas delas:

·       luta pelo poder entre marido e mulher, através do nível salarial e do sucesso profissional,

·       medo de não ser capaz de dar ao outro o suficiente e, assim, não ser considerado importante,

·       postura frágil e incapaz em outra área, caso seja bem-sucedido financeiramente, por medo de ser rejeitado,

·       dinheiro como suporte básico para sentir-se seguro ao lidar com a vida,

·       desejo de ser amado e de “segurar” o outro,

·       dinheiro como um cordão umbilical secreto, gerando dependência em relação aos pais ou ao cônjuge, por medo de assumir sua vida ou por vingança,

·       dinheiro como uma tentativa de reparação ou de alívio perante um sentimento de culpa,

·       vício de gastar em demasia, como forma de vingança por não se sentir amado ou admirado, ou em protesto pelo cônjuge ser visto como avarento,

·       forte medo e ansiedade ao gastar, como reflexo de uma infância pobre ou cujo histórico de vida está vinculado a situações sócio-culturais de emigração e guerra,

·       convivência marcada pela hostilidade, frustração e ressentimento, onde alguém se torna “bode expiatório” daquele que empobreceu,

·       dar dinheiro como um meio de subornar, criar dependência, comprar amor e respeito,

·       gastos secretos, como apostas ou estourar o limite dos cartões de crédito, recusa em trabalhar e ganhar dinheiro, contrair dívidas ou pagamento de fiança, causando danos financeiros à família, como uma forma de vingança.

Fica claro que o dinheiro desempenha um papel importante e, muitas vezes, secreto no modo como nos relacionamos. Ele está na base de toda vida conjugal e familiar, podendo nos aproximar ou nos distanciar daqueles que amamos, pois está sempre ligado a emoções, paixões, desejos secretos, remorso e, em particular, ao amor.

Como em quase tudo na vida, o trabalho preventivo é o mais saudável e eficaz. Sendo assim, que tal pôr em prática alguns exercícios em seu meio familiar?

Se vocês são recém-casados, observem, por exemplo:

·       se sabem usar o dinheiro, também, para se divertir;

·       se valorizam o que têm ou dão mais ênfase ao que gostariam de ter;

·       se é comum desqualificarem um ao outro e até punirem, através do uso do dinheiro;

·       se conversam abertamente, organizando uma planilha em conjunto que atenda à administração financeira da casa;

·       se comumente se queixam sobre questões financeiras, independente do momento e do lugar;

·       se sabem ser generosos e acolher, dentro do possível, as necessidades do outro, ou só pensam em receber.

 Se  têm filhos pequenos e adolescentes, observem:

·       que, quando damos aos nossos filhos uma mesada em troca de tarefas domésticas, recompensa por boas notas e presentes em ocasiões especiais, estamos ajudando-os a entender como ganhar dinheiro.

·       que é na família que as crianças aprendem a economizar, negociar com dinheiro, trabalhar por dinheiro, a serem avarentos ou generosos. Por isso, é útil que eles sintam que, ao lhe darmos uma recompensa, estamos investindo em sua auto-estima e não para enfatizar que eles não têm nada e nós temos tudo.

·       que, ao darem coisas para seus filhos, estarão criando necessidades e desejos, portanto atentem se estas serão superficiais ou não.

·       se o que lhes é dado tem como base um sentimento de generosidade ou de culpa.

·       se vocês pais deixam claro o que pode ser negociável e o que não pode. Caso os filhos sejam constantemente ameaçados de perder o que lhes foi dado, porque os pais não esclarecem o que é dado como obrigação e o que é dado como parte de uma troca, os filhos não saberão diferenciar nem compreender.

·       os pais precisam ser claros com os filhos e um com o outro sobre:

a.    o que pertence a todos da família e, portanto, não pode ser retirado como um castigo. Ex: a casa onde moram.

b.   o que pertence apenas aos pais, mas pode ser usado pelos filhos, se eles seguirem certas regras ou alcançarem certos objetivos. Ex: a televisão.

c.     o que pertence a cada uma das crianças e não pode ser retirado ou utilizado como uma recompensa ou castigo. Ex: o urso de pelúcia.

·       se todas as pessoas da família estão cientes das regras por meio das quais o dinheiro é distribuído. Ex: pela obediência, respeito, amor, boas notas ou por direito.

·       se a família tem um dia por ano, por exemplo, para fazer um balanço financeiro, para que todos possam entender quem ganhou o que e por quê, quais são as prioridades econômicas da família e quais são seus planos.

·       se todos sabem quem decide como o dinheiro será distribuído, ou seja, como funciona a hierarquia.

·       se, continuamente, vocês, pais, dão para depois tomar, pois isso irá gerar tamanha frustração a ponto de desenvolver um desejo de vingança que passará a ser o principal objetivo da vida do filho.

·       se há punições junto com o presentear. Escolha o momento apropriado para punir e outro só para recompensar.

·       se vocês têm o cuidado de evitar ressentimentos, já que uma criança ressentida é uma criança dependente, que tem dificuldade de crescer.

·       se permitem que seus filhos utilizem o empobrecimento como poder, ficando eternamente preocupados com eles e pagando sempre.

·       se procuram ser justos com todos os filhos, distribuindo o dinheiro eqüitativamente entre eles. Se você der mais para um filho do que para os outros, esclareça qual o motivo. Não permitam que seus filhos façam chantagem com vocês, mas, se cometerem um erro que venha a favorecer um dos filhos injustamente, façam uma reparação em relação aos demais.

 

O tema enfocado tem certamente outros desdobramentos que pretendo abordar posteriormente, mas acredito que este artigo possa ser útil enquanto reflexão inicial, já que...

Quando a gente pensa que sabe todas as respostas... Vem a vida e muda todas as perguntas.”

Elisabeth Salgado