Observar fatos da vida e a vivência em meu trabalho clínico são fontes motivadoras para que nasçam os artigos deste site.

    Talvez, o que vou abordar não o surpreenda, mas, em mim, na época, o fato de o proprietário de meu antigo consultório, com 92 anos, estar se separando, me tocou profundamente.

    Atualmente, atendo um senhor de seus 70 e poucos anos que procurou a terapia por insistência da mulher, a qual manifesta constantemente seu desejo de separação, fato ao qual ele se opõe fortemente. Ele só aponta uma questão conflitante: a vida sexual dos dois.

     Vários questionamentos me afloram. O que leva um casal com tantos anos juntos decidir se separar ? Por que e para que essa resolução tardia? O que esperam da vida nesta fase?

    Respostas difíceis e hipóteses questionáveis. Talvez, com a proximidade da morte queiram viver o que resta de outro modo. Talvez, estejam sendo encorajados pelo clima da época, onde casar e descasar é rotineiro, talvez só tenham tardiamente tomado coragem de fazer o que sempre desejaram, mas que não se sentiam capazes...

     Com base em estudos realizados em diversos países (Estados Unidos, Suécia, Alemanha, Holanda, Canadá, África do Sul, Israel e Chile) com o objetivo de identificar os processos e variáveis associadas à satisfação conjugal em casamentos de longa duração, foi possível identificar que a satisfação aumenta quando há proximidade, estratégias adequadas de resolução de problemas, coesão, boa habilidade de comunicação,  um status econômico satisfatório e a prática de sua crença religiosa.

         O estudo enfatiza que a satisfação conjugal, apesar de ser um conceito subjetivo, implica em ter as próprias necessidades e desejos satisfeitos, assim como corresponder, em maior ou menor escala, ao que o outro espera.

       Mas o que leva um casal de idosos a optar pela separação, após terem convivido com suas questões por tanto tempo? Afinal, eles construíram uma história a dois, lidaram com a realidade da vida, com sensações e sentimentos diversos, já passaram por várias transformações na sua relação conjugal e familiar e sobreviveram até agora...

      Chego à conclusão de que a satisfação conjugal é um caminho a percorrer e um cuidar a dois, sem data para terminar.

       Os anos passam e o casal, às vezes, não se prepara para as mudanças inerentes a este processo. Mudam os valores, as atitudes e as necessidades. Mudam a vida sexual e o nível sócioeconômico, os filhos saem de casa e não servem mais de pretexto para manter a união, mas ele e ela não se sentem capazes ou não desejam transformar a relação, revendo a vida conjugal e passando a valorizá-la acima das questões familiares.

       Por outro lado, até que ponto é válido que duas pessoas permaneçam juntas por terem medo da mudança, por rejeitarem o divórcio, devido a razões pessoais ou religiosas, por terem medo da solidão, por não conseguirem lidar com a liberdade e auto-suficiência, por não quererem repartir um patrimônio construído ao longo dos anos?

       Como resultado de pesquisas realizadas, as uniões saudáveis, de mais de vinte anos, se caracterizam por um compromisso com a relação, por um respeito pelo outro como melhor amigo, lealdade e expectativa de reciprocidade, um clima de camaradagem e um prazer de conversar, além de valores morais fortes e compartilhados.

      Já Lauer e Kerr (1990) realizaram pesquisa com casais entre 45 e 60 anos de relacionamento e identificaram como componentes importantes da relação:  o senso de humor, estar casado com alguém que se valorize como pessoa e aprecie estar junto, consenso sobre vários assuntos, tais como estilo de vida, amigos e tomada de decisões.

      De modo geral, os resultados das diversas pesquisas realizadas, em diversos países, por Kaslow e seus colaboradores, chegaram à conclusão de que os casamentos satisfatórios de longa duração se caracterizam por apresentar: boa resolução de conflitos; confiança entre os cônjuges, que gostam de passar o tempo juntos e valorizam o aspecto sexual do seu relacionamento; compromisso com o outro; apreciação, amor e respeito mútuos; habilidade em dar e receber; comunicação honesta e aberta entre os parceiros; crença na dimensão espiritual da vida.

    Tais relações se mostram também mais flexíveis e igualitárias quanto ao exercício do poder.

      Volto a pensar nas histórias iniciais e sinto que, talvez, nestas relações, os casais esqueceram que há necessidade de investir sempre na relação para que ela seja satisfatória, que é necessário um empenho conjunto para tentar achar um equilíbrio entre conjugalidade e individualidade, partilhando interesses e relacionamento afetivo-sexual, evitando repetições corrosivas que geram o tédio emocional.

      Casamentos de muitos anos só poderão ser satisfatórios, se existir amor, mas não o amor romântico de Romeu e Julieta, mas o amor que faz com que um permaneça se importando com o outro apesar de...

                  por Elisabeth Salgado