Como terapeuta  de família e como ser humano, estou consciente de que há momentos em que toda família passa por  fortes de mudança em seu ciclo de vida, que devem ser   por  ela elaborados de uma maneira flexível e consciente.

                 Transições esperadas, que comumente desestabilizam,  têm a ver com o nascimento de um filho, o tornar-se pai e a educação de filhos pequenos; a transformação do sistema pelo conviver com filhos adolescentes; o " lançamento do jovem adulto solteiro "; a união de famílias pelo casamento de um filho, que irá criar um novo núcleo; as famílias no meio da vida , seguindo em frente, após a saída dos filhos; a família no estágio tardio da vida, onde é necessário uma readaptação perante a aposentadoria e perdas inerentes ao processo do envelhecimento.

                Mas, fruto da época em que vivemos,  caracterizada por uma instabilidade tanto do mercado de trabalho como das relações afetivas, outro momento que origina conflitos e grandes transformações é aquele em que, depois de saírem de casa, os filhos retornam à família de origem.

                  É um momento muito conflitante tanto para os pais, que já haviam se reestruturado sozinhos, com uma dinâmica mais autônoma e metas mais voltadas para uma vida a dois, não raro refazendo questões conjugais e profissionais do meio da vida, como para os filhos que retornam, não mais como adolescentes ou crianças, mas como adultos dependentes e, muitas vezes, também como pais.

                   Tal situação parece um retrocesso, uma ruptura no processo habitual do ciclo familiar. Como é difícil, apesar do amor que une pais e filhos, voltar a restringir os espaços, a dividir as gavetas e os armários, a novamente rever as despesas, convivendo com filhos crescidos, já habituados a seu próprio espaço e regras, quase sempre diferentes daqueles da casa paterna.

                   É um regresso repleto de perdas, para ambos os lados, onde só o afeto, a compreensão e a tolerância podem trazer um suporte.

                    Quem volta traz uma sensação de fracasso e quem recebe se defronta com o inesperado, com uma sensação ambígua de acolhimento e de limitação.

               Como administrar a proximidade de papéis que já não mais existia?

                 A saída de casa costuma representar, tanto para os pais como para os filhos, uma significativa marca destes últimos para a fase adulta, onde o jovem adulto deixa a casa dos pais, estabelece objetivos de vida pessoal e começa uma carreira.

              Vivemos, atualmente, uma época de muitas mudanças quanto a este momento de passagem, pois o que se observa é a permanência, cada vez mais prolongada, de jovens adultos na casa dos pais. Esse fenômeno vem sendo observado desde meados da década de 1980, quando Jean-Claude Chamboredon identificou uma "nova idade da vida", que batizou de "pós-adolescência".

             As razões apontadas para esse fenômeno são bastante conhecidas: por um lado, a generalização do acesso à educação e a progressiva extensão da escolaridade obrigatória têm levado cada vez mais jovens a prolongar seus estudos; por outro lado, as crescentes dificuldades de inserção efetiva no mercado de trabalho têm levado as novas gerações a experimentar períodos cada vez mais longos de instabilidade no trabalho, marcados por contratos temporários, condições de trabalho insatisfatórias ou rendimentos insuficientes para a concretização de projetos pessoais, muitas vezes alternados com períodos de desemprego e procura por vagas.

             A combinação desses dois fatores tem levado à extensão do período entre a conclusão dos estudos e o início da vida ativa, fazendo com que muitos jovens posterguem os planos de abandonar o lar familiar, casar e ter filhos. Esse intervalo maior entre o término da preparação profissional e a formação de uma família, caracterizado tanto como um "adiamento" da vida adulta, quanto um "prolongamento" da situação de juventude, tem sido preenchido por práticas e estilos de vida alternativos ao modelo familiar tradicional, como viver sozinho ou em coabitação e ter filhos fora do casamento.

             Voltando à abordagem do retorno filial à família de origem, pode-se dizer que esta se deva não só à tão falada resistência em crescer  e assumir uma vida com responsabilidades, mas à dificuldade de inserção do jovem no mercado de trabalho e outros fatores estruturais, como os crescentes custos da habitação, tanto no que se refere à possibilidade de pagar um aluguel como de compra de um imóvel.

           Sendo assim, os filhos também podem retornar à casa paterna tanto por razões sócio-econômicas como por terem se arriscado prematuramente, ou seja,  antes de estarem devidamente preparados para poder andar com as próprias pernas, sem fazer do casamento uma ponte ou sem estarem profissionalmente madurecidos.

          Mas, como o sistema familiar pode lidar com este retorno?

          No momento, refletindo sobre este tema e suas implicações, acho importante resgatar o conceito de maturidade e de ser adulto.

           Se, antes, a maturidade era atribuída ao completar uma seqüência de etapas que tradicionalmente marcavam a transição entre uma e outra fase da vida, hoje tornar-se adulto é percorrer um caminho cada vez mais sinuoso, com muitas mudanças de orientação, atalhos, alternativas que assinalam múltiplas direções e obstáculos que levam a desvios, paradas e mesmo ao retorno sobre os próprios passos.

          Nesse sentido, a definição do que significa ser adulto não se limita a determinantes objetivos, tais como a independência de residência ou financeira, mas envolve, necessariamente, a construção de si mesmo como pessoa autônoma e responsável.

          Sendo assim, pais e filhos devem buscar um conviver baseado nestes valores, onde sejam criadas estratégias particulares de afirmação da autonomia, que passam pela negociação e pelo estabelecimento dos limites do "espaço próprio", tanto no âmbito do espaço físico como das relações entre pais e filhos.

          Para que se preserve uma harmonia, sem abdicar do direito de autonomia, pais e filhos precisam estabelecer regras de vida em grupo, tanto no que se refere ao uso do espaço físico da casa, às variações no uso deste espaço, em função da presença e da ausência dos membros da família nos diferentes horários do dia, às contribuições financeiras passíveis neste momento, através de negociações claras e constantes.

          É importante que todos tenham consciência do que é pertinente aos pais, do que pertence ao filho e do que diz respeito ao coletivo familiar.

           Como já foi dito anteriormente, quando os filhos voltam para casa, todo o sistema familiar  se desequilibra e serão necessárias negociações, colocação de limites e o estabelecimento de metas responsáveis traçadas pelos filhos e cobradas pelos pais, para que haja o resgate de sua independência.

                  Elisabeth Salgado