Quando chega o outono, as folhas caem...

                                  A natureza segue seu ciclo, mas a vida não acaba, ela se transforma e dá frutos...Assim também acontece na velhice.

                       O homem, como a árvore, sofre perdas.

                       As folhas que caem denunciam uma fraqueza física, olhos que vêem cada dia menos, ouvidos que ensurdecem, ossos que doem, demora para realizar atividades rotineiras, adormece à tarde, as lembranças tornam-se difíceis de reter, chega a aposentadoria...

                      Os estudiosos do processo de envelhecimento, entretanto, pontuam que o que mais atrapalha a aceitação da velhice pelo ser humano, mais que a questão de ter uma boa saúde, uma boa renda ou bons amigos, é a sua atitude perante as perdas, bem como a natureza dessas perdas.

                      Há homens e mulheres idosos que tratam o envelhecimento físico como inimigo e sentem cada dor, mal-estar ou declínio físico como uma ofensa, uma humilhação, uma perda intolerável. Mas, há também aqueles que conseguem uma visão positiva do assunto e que dizem como a escritora e psicóloga Florida Scott, em seus mais de oitenta anos: "Nós que somos velhos sabemos que a idade é mais do que uma invalidez. É uma experiência intensa e variada, às vezes, mas é algo para ser carregado bem alto. Se é uma longa derrota, é também uma vitória...".

                        De acordo com uma senhora de cerca de sessenta e oito anos que conheci, numa reunião, sua grande aliada é a ambição de viver tudo que puder. Ela me dizia que começara a escrever uma livro e que agora está tendo aulas de pintura. Adora viajar e tem um sonho: visitar a Índia!

                        Outro depoimento de vida produtiva e de grande valor em lidar com o envelhecer aparece através da vida do ator Paulo José, que, perguntado sobre como conseguia lidar tão bem com a doença de Parckison, fala sobre as mudanças que realizou em sua vida, dizendo-se abençoado. 

 

                       Hoje, ele acorda com um objetivo definido: fazer valer o dia a ser vivido. Por outro lado, ao conviver com a doença, ficou mais introspectivo e mais consciente ao realizar tarefas em seu dia-a-dia e se reconhece, inclusive, melhor atualmente ao executar algumas delas. Neste programa, o ator e diretor recebeu vários elogios sobre sua capacidade de luta, mas uma frase que escutei de uma de suas filhas me tocou: "eu admiro meu pai pela sua capacidade de se reinventar".

                       Acredito que tal qual o outono, a velhice é o momento da colheita dos frutos gerados por nosso crescimento espiritual.

                        É a hora em que mais teremos que fazer uso de  uma flexibilidade e de uma maturidade perante a vida, para podermos reiventar a nós mesmos. Nessa hora, perceberemos o quanto nos tornamos capazes de transcender de uma posição egoísta para outra solidária e humanitária.

                        Com certeza será mais fácil envelhecer, se não escolhermos ficar entediados perante a passagem do tempo e, ao contrário, mantivermos interesse por pessoas e projetos.

                                    

                       A velhice não traz só perdas. Aprender a conviver com o outono, e não só com a primavera, é um caminho saudável para lidar com a vida tal como ela é.

                                 

         Elisabeth Salgado