Como em outros artigos, o tema enfocado
nasceu de minha própria vivência, da
observação de atendimentos clínicos, das
dificuldades e limitações que as pessoas
apresentam, ao lidar com a sua vida, quando
se submetem ao julgamento de outros e se
deixam manipular pelo desejo daqueles com
quem convivem.
Muitas
pessoas têm o corpo livre, mas a alma presa.
Seu carcereiro é impiedoso, assustador: ele
é o medo de não ser aceito ou de não ser
amado.
Estas pessoas habitam celas mínimas, sem
espaço para exercer seus desejos,
necessidades e crenças. O cadeado que as
mantém aprisionadas é feito de um material
aparentemente inocente, por vezes, mas, em
sua maioria, percebido como doloroso: a
crítica do outro!
Como as pessoas chegam ao cárcere? Como
desistem do que querem? Como abandonam o
caminhar livre, trocando-o por grades que
limitam?
Tudo começa quando se esquecem de olhar para
si mesmas e, em lugar disso, vivem para
serem olhadas. Nesse momento, o olhar que
não é o seu, o olhar do outro, se torna o
seu juiz final.
Desde pequenos, já ficamos expostos a este
aprisionamento, quando nos ensinam, de modo
velado ou bem claro, que seremos amados e
valorizados, apenas, se correspondermos às
expectativas dos demais.
E, assim, crescemos,
escutando aquelas célebres frases: “O que os
outros vão pensar?“ Se você não for bonzinho
com os amigos... Se você não tirar notas
boas...Se você não estiver bem vestido...Se
virem você chegar a esta hora...
É verdade. Desde muito cedo, mensagens nos
são passadas sobre não termos o
direito de cometer erros e de sermos
responsáveis por eles.
Somos criados mediante expectativas e
crenças de que sempre temos que
apresentar
desculpas e razões que justifiquem nosso
comportamento, de que é ruim mudar de idéia, de
que é uma fraqueza dizer
“não sei”, de que jamais façamos algo
que possa
desagradar a alguém, de que sempre
devemos apresentar uma
lógica para o que sentimos ou escolhemos
fazer, e de que devemos sempre nos julgar responsáveis por solucionar problemas
de outras pessoas.
A vida passa e como disse Eric Berne:
“O homem nasce livre, mas a primeira coisa
que aprende é agir conforme ensinam e passa
o resto da vida fazendo isso”.
Estas pessoas muitas vezes sabem que são
prisioneiras, mas por se alimentarem do
medo, da carência e da culpa, não ousam ir
atrás da chave que poderá abrir seu cárcere:
coragem para serem o que são,
avaliando o que lhes foi passado e criando
sua própria escala de valores.
Ficam em suas celas, ora submissas, ora
revoltadas e ora como vítimas, mas sem ousar
sair e, lembrando Virginia Satir, sem exercer o
seu direito de Liberdade.
“Liberdade para ver e ouvir o que é,
em vez de o que deveria ser, foi ou será.
Liberdade de dizer o que sente ou pensa, em vez de o que deveria sentir ou
pensar.
Liberdade de perguntar o que quer saber, em vez de sempre esperar
permissão.
Liberdade de correr riscos por conta própria,
em vez de escolher apenas a “segurança” de
não virar o barco.”
Enfim, a liberdade de priorizar seu
próprio olhar como guia de vida,
a liberdade de viver sem “máscaras”,
fingindo ser o que não é para encobrir suas
limitações e sua humanidade.