Era um daqueles dias de muita chuva, em que a gente tem mais é vontade de não sair de casa, mas os ingressos já haviam sido comprados há meses atrás. Por outro lado,  a expectativa da mágica do espetáculo não nos permitia qualquer comodismo.

E, foi assim, que eu me vi retroceder no tempo, voltar a ser um pouco criança, ficar deslumbrada e com os olhos fixos nos maravilhosos malabaristas do Circo du Soleil...

O tempo passou, sem que eu sentisse. O cinza ficou lá fora, enquanto as cores se tornavam puro movimento através de acrobacias arriscadas em balanços de madeira ou em cordas suspensas, por escaladas em mastros, vôos e saltos incríveis através de trapézios.

Assistir a este espetáculo me fez refletir em como o circo e a vida real se assemelham. Em como assumimos diversos papéis, ao nos relacionarmos com os outros e com o que nos cerca, não raro priorizando um deles como sendo o mais forte e constante em nosso comportamento.

Alguns passam a vida se equilibrando ou equilibrando coisas, outros estão sempre atraídos por lances arriscados,  sem contar aqueles que gostam de levar a vida na brincadeira, mesmo que caiam, se deliciando em fazer os outros rirem, muitas vezes escondendo sua dor, como os palhaços.

Há pessoas que preferem apresentar o outro, ficando à sombra, em lugar de serem o foco das atenções, já outros querem mais é serem estrelas do espetáculo e receberem os aplausos.

Outras ainda conseguem "tirar coelhos de cartolas", transformar o feio em belo ou fazer parecer ser o que na realidade não é, através de suas mágicas e criatividade.

Lembro de uma malabarista russa que, naquela noite, enquanto sapateava, chegava a ter nas mãos dez bolinhas. Ela me chamou a atenção porque, fazendo parte ou não de sua apresentação, a jovem tentou por três vezes, sem sucesso, trabalhar simultaneamente as dez últimas bolinhas. Na terceira tentativa, ela desiste e continua com graça o seu sapateado, curvando-se ao final, para receber os aplausos de quem lá estava.

Nesse momento, em que ela falha, parece que somos retirados de um mundo idealizado, onde tudo dá certo e conforme os planos, e somos devolvidos ao mundo real, onde não existem apresentações perfeitas.

Talvez, por isso, a gente pode se sentir incomodado(a), inicialmente, já que o mundo da fantasia é tão atraente, mas, depois, é gratificante lembrar que a artista respeitou seu limite, aceitou a imperfeição e continuou o número.

Por outro lado, foi bonito ouvir os aplausos da platéia, que não a julgou só pelo momento de insucesso, mas pelo conjunto de sua atuação.

Neste mesmo espetáculo, havia um palhaço mímico que interagia com o público, acordando a criança de cada um e lembrando Chaplin.

 O mesmo inesquecível Chaplin que dizia: "Que eu seja um comediante—mas um comediante que pensa".

O mesmo filósofo-comediante Chaplin que reconhecia que cada pessoa ao passar em nossa vida, passa sozinha, já que cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra e que, ao passar, não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós, criando assim um momento de responsabilidade, onde nenhum encontro é por acaso.

O mesmo gênio Chaplin que nos alertava sobre o valor da existência, ao dizer que "a vida é uma peça de teatro que não permite ensaio" e que, sendo assim, devemos cantar, rir, dançar, chorar e viver "intensamente cada momento, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos".

Enfim, é importante que a gente não se esqueça que a vida é uma arte e para se ter sucesso em qualquer arte é preciso saber distinguir entre a verdade e a imitação quando escolhermos nosso papel nas relações.

Elisabeth Salgado