Já
houve uma época em que questionei a validade de datas instituídas
como um momento de reflexão ou de determinada homenagem.
Hoje, penso diferente. Adequação a uma realidade? Não sei bem, mas a
verdade é que acredito nos rituais, na energia positiva e no sentido
fraterno que eles carregam.
O ideal seria que
o homem tivesse em mente, continuamente, valores portadores de
amor, paz e compreensão. Mas, isso seria o ideal.
O
homem moderno corre e sofre de amnésia no que se refere a amar o
outro e a si mesmo, por isso ter e criar oportunidades que o façam
lembrar é importante e necessário.
E o
Natal é um grande momento! Ele ainda guarda a força de uma mensagem
que celebra o amor em sua forma mais desafiadora, pura e universal:
o amor apesar das diferenças!
Não
se trata de amar ou de homenagear a mãe, o filho, o marido ou o
namorado. Não se trata de amar aquele que já recebe nosso amor pela
própria importância que possui em nossa vida, não se trata de amar
aquele com quem nos identificamos de alguma forma...
Amar
o "igual" é bem mais fácil, difícil é amar e acolher o "diferente",
aquele que se opõe às nossas aspirações, crenças e valores, aquele
que nos incomoda pelo seu comportamento, atitude ou palavras.
Mas,
é esta forma de amar que o Natal evoca.
Celebrar o Natal é celebrar a união entre os homens, apesar de...É
ter a chance de, pelo menos neste dia, vivenciar uma difícil
aprendizagem: estar junto sem condições nem cobranças de que o outro
seja como gostaríamos que fosse, é estar, apenas estar e perceber
que é possível...
E
não existe melhor lugar "para começar" do que dentro da
família.
A
casa está linda, a ceia está posta, a árvore se ilumina rodeada de
lembranças. E as pessoas? Como estamos nos relacionando com elas?
Procuramos nos distanciar de quem nos incomoda ou nos aproximamos,
deixando os preconceitos de lado? Sorrimos condescendentes, como
reflexo de uma mera tolerância, ou nos damos realmente uma chance
para acolher o outro? Adotamos uma postura defensiva ou desistimos
da armadura?
Quanto maior a família, maior será a chance de vivenciarmos um
encontro com as diferenças e maior a chance de o nosso Natal se
enriquecer.
Na
realidade, o que pode parecer um "espinho", um incômodo, é a
oportunidade que a vida nos está oferecendo de começar a praticar a
flexibilidade e a compreensão. Acolher o diferente é difícil, sim,
reconheço. Entretanto, é uma fantasia acreditar que é possível mudar
o outro, esperar que o bem e o mal não coabitem o íntimo de qualquer
ser humano ou perseguir a perfeição.
Acolher a diferença não quer dizer necessariamente concordar com o
que o outro faz e, quando ele erra, não quer dizer também ser
cúmplice dos erros dele.
Como você
se sentiria nos relacionamentos familiares, se esquecesse os rótulos
de sogra chata, filho problema, marido ou esposa egoísta, mãe ou pai
controladores, nora possessiva, entre outros, e olhasse para o outro
como um ser humano que, como você, também tem uma história?
Você
pode não concordar e não escolher para você a atitude ou as idéias
de um certo alguém, achar até mesmo que do seu ponto de vista ele
está errado, mas não precisa escolher não gostar dessa pessoa, por
não concordar com ela.
Ironicamente, a perfeição
está na
diversidade, na forma criativa como é toda a natureza da Terra, onde
o belo e o feio, o perfeito e o imperfeito se unem para criar aquilo
que é sagrado neste planeta: a criação da vida.
O
Natal enfatiza a paz, mas ela só é possível se aprendermos e
aceitarmos que a nossa força não reside em não ter dificuldades, mas
em saber lidar com elas de um modo saudável.
Ver
a diferença como algo que acrescenta e enriquece, e não só como algo
que incomoda, é aprender a vivenciar encontros e o verdadeiro
espírito do Natal. Vamos treinar?

"Estradas planas
não geram bons motoristas.
Mares calmos não
geram bons marinheiros.
Céus límpidos não
geram bons pilotos.
Uma vida sem
problemas não gera uma pessoa forte.
Seja forte o
suficiente para aceitar os desafios da vida...
Não pergunte à
vida 'por que eu'? Em lugar disso diga, 'me teste'!"