O tempo passa
trazendo mudanças, às vezes boas, às vezes doídas e indesejáveis..
Ele traz a mensagem de que tudo passa, de que nada dura para sempre. Mas,
não raro, indagamos por que tem de ser assim?
Acabarem a dor, a tristeza, a raiva,
o
ódio, a fome ou a doença, isto sim, mas por que o entusiasmo, a paixão,
a admiração, o companheirismo, a juventude e a própria vida?
Muitas vezes, ficamos a nos debater nesse duelo, inconformados com essa
inconstância no viver, com essa transitoriedade e finitude que faz parte
de nossos dias, assim como o sol e a lua se alternam, através do passar
das horas.
Hoje, penso que esse inconformismo perante a única coisa que é imutável
- a inconstância humana - é um gerador de conflitos em nossas
vidas. Queremos ser sempre protegidos e acarinhados, como se ainda
fôssemos crianças indefesas, ainda dependentes dos pais,
projetando-os
no outro que vive conosco, muitas vezes.
Queremos que nossos filhos cresçam, mas que continuem
dependentes de nossos desejos e opiniões. Queremos ser amados e
amar verdadeiramente, mas não queremos desistir da paixão e de
suas fantasias que ofuscam a verdade de uma relação. Queremos ser
admirados pelas realizações e maturidade adquiridos, mas
não aceitamos as marcas do tempo que deixam rugas no corpo e na alma...
E, nessa briga com a existência, vivenciamos conflitos, sofrendo, não
raro, mais do que deveríamos.
Insistimos em manter os mesmos valores, mesmo sabendo que alguns deles nos
fazem olhar o mundo de uma forma rígida e desgastante, preconceituosa,
por vezes, enquanto outros foram apenas herdados de outros, sem
que os quiséssemos ou neles realmente acreditássemos.
Mudamos de casa, de bairro, de país, de parceiro, mas continuamos a viver do mesmo
modo...
Percebi, um dia, que "briguei"muito mais com a vida e com a
realidade, do que com pessoas com quem mantinha conflitos.