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Meu
Filho não mente!
Esta frase parece ter virado uma “bandeira” entre os pais de hoje,
gerando uma muralha ao diálogo entre a família e a escola, no tão
necessário encontro de soluções funcionais em Educação.
A Escola interpreta a frase como uma porta fechada dos pais às
possíveis falhas e infrações filiais e os pais a vêem como uma saída
para lidar com o incômodo de reconhecerem os erros dos filhos e as
suas inerentes falhas ao educarem os mesmos.
E a disputa continua: os pais acusando a Escola de difamação,
chegando a abrirem processos, em algumas situações, e a Escola
acusando os pais de serem omissos e superprotetores e de terem
filhos delinqüentes.
E, mais uma vez, quem sai perdendo são eles, os filhos desta
geração...
Minha visão sistêmica me impede de tomar partido entre família e
escola. Não acredito que a verdade esteja com um deles apenas, mas
com ambos, bem como igualmente as falhas.
Existe uma história sobre os cegos e o elefante que exemplifica bem
o que acredito.
Conta a história que, certo dia, um rei reuniu, no jardim de seu
palácio, os cegos do reino ao redor de um elefante e pediu a eles
que definissem o animal. Eles começaram a apalpar o animal e cada um
fornecia uma definição diferente, conforme o lugar que escolheram
para apalpar. Logo, um duelo de opiniões se instalou entre eles, sem
chegarem à conclusão nenhuma, tão seguro cada um deles se mostrava
sobre ser sua percepção a única certa.
Em dado momento, o rei pediu silêncio e disse:
- “Vocês são mais cegos do que eu imaginava. Se vocês não estivessem
tão preocupados em estarem certos e de mostrarem que os demais estão
errados, teriam percebido que o elefante é tudo que vocês disseram
ser e não apenas o que cada um descreveu.”
Sempre conto esta história quando quero mostrar que a verdade é algo
bem maior que uma opinião isolada.
Voltando ao tema deste artigo, Família e Escola continuarão cegas,
se ficarem presas em suas próprias verdades, sem levar em
consideração a verdade do outro, havendo só um caminho para que a
luz se faça: baixar as armar e compartilhar experiências.
Mas, a frase está no ar: “Meu filho não mente!”
Qual é a verdade da família e qual é a verdade da Escola? Como
elas podem se enriquecer mutuamente? Esta é a questão!
A verdade dos pais reside no medo de aceitar que seus filhos não são
perfeitos e que, portanto, eles, pais, também não o são. A verdade
dos pais reside na necessidade de acreditar em seus filhos como um
dos únicos redutos de fé em um mundo ateu de humanidade, de respeito
e de moral.
A verdade dos pais reside na ausência de questionamentos perante uma
sociedade narcísica que valoriza o poder, a perfeição e marginaliza
as limitações e imperfeições de qualquer ser humano.
“Meu filho não mente” equivale, na realidade, a “Meu filho é
perfeito e não me engana, logo eu sou um bom pai e não me engano.”
Triste retórica...Como este pai mente para si mesmo!
Ser um bom pai não é ser um pai perfeito! O bom pai sabe que pode se
enganar e que sempre deverá estar preparado para se auto-corrigir e
rever valores. O bom pai ama seu filho, mas não se torna um só com
ele. Ele estabelece fronteiras e o vê como alguém separado dele e
que pode errar, independente do que o pai faça.
Lidando com jovens e famílias, percebo que quanto mais
perfeccionistas são os pais, mais a mentira faz parte do sistema
familiar.
As crianças compreendem a necessidade de mentir tanto mais cedo
quanto mais inteligentes elas forem. Nos primeiros anos de vida elas
não sabem distinguir fantasia da realidade e é normal que, por volta
dos quatro e cinco anos, pelo processo psicológico de fantasia,
busquem a diversão, ouvindo e inventando histórias, confundindo a
realidade com a fantasia.
Quando então descobrem, como é possível lograr os outros, elas o
fazem primeiramente em proveito próprio, a fim de evitar castigos ou
para receber alguma recompensa.
Mais ou menos a partir dos sete anos de idade, elas aprendem a
diferenciar o pensamento verdadeiro do falso.
Já a criança com mais idade e adolescentes podem mentir por vários
motivos: para se isentarem de culpas, por acharem que este é o
caminho para serem aceitos e valorizados, passando a acreditar que
dizer mentiras é a melhor maneira de satisfazer às expectativas de
seus pais, professores e amigos.
O perigo é que mentir pode se tornar um vício, um vício de
conseqüências aparentemente bem mais brandas para o filho, do que
lidar com a rejeição dos pais e da sociedade.
Por outro lado, há crianças ou adolescentes que mentem para tirar
proveito. Alguns adolescentes mentem freqüentemente para ocultar
problemas sérios como, por exemplo, o consumo de drogas ilegais ou
álcool, para ocultar onde têm estado, com quem andam, ou o que
estavam fazendo, quando faltaram à escola e onde têm gasto o
dinheiro etc.
Dificilmente, os pais, ao descobrirem ou serem notificados de que
seu filho mente, param para pensar o quanto eles próprios enganam e
se enganam, sendo condescendentes com as “desculpas” na caderneta
escolar, com a aquisição de falsos atestados médicos, ao
compactuarem com mentiras “brancas” que vão desde falsos elogios,
ensinando seus filhos “a dourarem a pílula” para conseguirem seus
objetivos, até grandes mentiras que mascaram desvios de caráter.
Será que estes pais “cujos filhos não mentem” são capazes de dizer a
verdade, sem receio de parecerem ingênuos, e de se mostrarem
responsáveis pelas suas escolhas e sentimentos?
Será que estes pais “cujos filhos não mentem” são modelos
verdadeiros na formação dos filhos, casando suas palavras com suas
ações?
Na realidade, a família e a sociedade estimulam a “mentira”, mas não
sabem lidar com seus efeitos.
As crianças aprendem, desde cedo, que é melhor não dizer à sua
antipática tia que não gostam de seu bolo ou de sua presença.
Por outro lado, mamãe finge alegria, ao receber o presente de
aniversário inútil, e a família adota a lei do silêncio sobre
inconvenientes familiares, onde nada é falado ou desvendado.
E, o que é pior, muitos pais mandam os filhos mentirem: "Diga que eu
não estou em casa" ou “Não conte para sua mãe!”
Estes são apenas alguns exemplos de modelos e treinamento para as
mentiras diárias no futuro da criança.
E a verdade da Escola?
Apesar de ser a família o ponto de partida para a criação e
exercício de valores, tanto a Escola como a Sociedade são elementos
fundamentais para a sua consolidação.
A verdade da Escola também deve passar por questionamentos. Quando o
professor diz “seu filho mente”, o que ele quer fazer com isso?
Informar ou Formar? Com o que ele se preocupa? Com a disciplina ou
com o caráter do aluno? Quer esclarecer a situação, ajudando ou
acusando?
A verdade da Escola passa, principalmente, pelo relacionamento entre
direção, coordenação, supervisão, professores e alunos. É importante
lembrar que os adolescentes têm um sensor muito aguçado para
detectar adultos autênticos ou não. A coerência é o grande
norteador.
Como psicopedagoga, psicóloga e terapeuta familiar, observo que
quanto mais comercial e distante for a convivência entre
professores, pais e alunos, mais a mentira será instalada nas
relações e na ação de educar.
Esta verdade pedagógica perpassa pela palavra do professor, pelo
acolhimento de sua aula, pela vocação em ensinar, pelo desejo de
contribuir para a formação de um ser, pelo conteúdo do que
transmite...
Lembro-me das palavras de Santo Agostinho, quando disse: “As pessoas
viajam para procurar maravilhas no topo das montanhas, nas altas
ondas do mar, nos longos cursos dos rios, na vasta extensão do
oceano, no movimento circular das estrelas, e passam por si mesmas
sem se maravilhar.”
Esse pensamento me estimula a sentir que o homem ainda não descobriu
a grandeza que há na verdade que nada tem de perfeição, mas de fé e
construção e, por isso, cria fantasias, mentiras, traições e fugas,
em lugar de viver e conviver, com autenticidade, o que existe dentro
de si mesmo.
Elisabeth
Salgado.
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