Desde cedo, aprendemos que temos que ser bonzinhos para com
todos, praticar só o bem e buscarmos a perfeição para sermos
amados e aceitos.
Desde muito cedo, recebemos a mensagem clara ou subentendida
de que não podemos decepcionar quem amamos, pois o castigo
será terrível: não gostarão mais de nós.
E ai de nós, se nossos desejos forem diferentes, se tivermos
limitações que impedirem de corresponder ao que planejaram
para nossas vidas...
Desde crianças nos ensinam a só mostrar nosso lado "fada",
aquele que nos torna servis e disponíveis para o desejo do
outro, aquele que abdica de si mesmo para que o outro
alcance o que aspira.
E, assim, pela vida a fora, tal aprendizado nos é cobrado,
gerando um conflito interno, parceiro da culpa e de uma
rejeição pelo que somos...
Em dado momento da vida, se você não se tornar auto-didata
em dar voz ao seu lado "bruxa(o)", aquele que está atrofiado
porque era feio e condenado desde a infância, aquele que faz
parte de você e com quem você sempre travou uma luta de não
aceitação por medo de ser rejeitado, você irá descobrir que
não foi o dono real de sua história de vida, que não viveu
realmente, só sobreviveu.
Numa cultura que idolatra o "belo", o "inteligente", o "vitorioso",
o forte, só nos é autorizado praticamente a mostrar e
a vivenciar nosso lado fada, um lado que considero
incompleto e muitas vezes utópico, perfeccionista, de uma
exagerada auto-cobrança, que nos afasta de nós mesmos e do
amor que precisamos nutrir.
Ao contrário de uma visão tradicional, vejo o lado bruxa
de cada um como sendo aquele que o torna mais humano e
compreensível com as falhas da vida.
Enquanto que a fada vive de encantos luminosos, a bruxa faz
uso da terra e do que nela existe, mesmo que aparentemente
seja feio.
Imaginar a vida como um conto de fadas, onde sem "varinha de
condão" não resolveremos nossos problemas e não venceremos
os obstáculos, é algo fantasioso e desgastante.
A riqueza de sermos o que somos e que nos faz ser únicos
resulta da união de tudo aquilo que habita dentro de nós e,
principalmente, do acolhimento de nossas facetas
consideradas "estranhas", diferentes ou inadequadas pelos
demais.
Embora não tenham nos ensinado,
"usar a vassoura" para
eliminar o que diversas vezes nos atrapalha, como o que os
outros esperam ou pensam de nós e construir nosso
próprio caldeirão de valores e crenças, será a grande mágica
da vida de quem sabe que é humano e se aceita como é.