Não é raro encontrar pais que desvalorizam a pré-escola, dizendo que a criança vai lá só para brincar, que gasta muito material e que não aprende nada.

                  Por já ter escutado isso, de modo sério ou em tom de brincadeira, resolvi abordar este tema na tentativa de esclarecer a importância do brincar na vida da criança.

                 Na realidade, as brincadeiras das crianças deveriam ser consideradas suas atividades mais sérias e se queremos entender nossos filhos, precisamos entender suas brincadeiras. Ao observar uma criança brincando, o adulto pode compreender como ela vê e constrói o mundo, como ela gostaria que ele fosse, o que a preocupa e os problemas que a cercam.

                 Através do brincar, a criança pode desenvolver sua coordenação motora, suas habilidades visuais e auditivas, seu raciocínio criativo e inteligência. Está comprovado que a criança que não tem grandes oportunidades de brincar e com quem os pais raramente brincam sofrem bloqueios e rupturas em seus processos mentais.

                 Conta-se que Einstein, até os três anos, não conseguia falar e  usava blocos de construção e quebra-cabeças para se comunicar.

                 Brincando, ela começa a entender como as coisas funcionam, o que pode e não pode ser feito, aprende que existem regras que devem ser respeitadas, se quer ter amiguinhos para brincar e, principalmente, aprende a perder e a ver que o mundo não acaba por causa disso. Descobre que, se ela perde um jogo hoje, pode ganhar em outro amanhã.

                 Uma criança é criança porque brinca. Se não consegue brincar, não está bem; se seus pais não a deixam brincar, eles também não estão bem. Se o brincar é pobre de imaginação ou fixo em algum objeto, a criança não está conseguindo fantasiar a partir de suas necessidades de elaboração e, ainda nesse caso, não deve estar bem.

                 Se os pais exigem da criança obrigações de adultos e a enchem de atividades, é porque estão tentando preencher suas próprias inquietações com a agenda lotada do filho.

                 Por outro lado, como tudo que é extremo não funciona bem, quando uma criança vive somente no seu mundo de fantasias ou seus pais só se referem a ela “de brincadeira”, há algo errado com algum deles.

                 Finalmente, o brincar pode funcionar como um espaço através do qual a criança deixa sair sua angústia, aprende a lidar com a separação, o crescer, a autonomia, os limites.

                 Lembrando as palavras de Winnicott:

                 "É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação."

                    Elisabeth Salgado