Esta vida
realmente é feita dos mais diversos tipos de encontros...
Quando ainda
lecionava Português e Literatura, bem no início da carreira, adotei por vários anos o livro "Menino no
Espelho" de Fernando Sabino, em minhas aulas.
Embora
conhecesse outros livros do autor, esta obra era a minha
preferida, pois de uma maneira simples e pueril, podia
abordar com meus alunos a criança que existe em todo adulto,
a eternidade das vivências da infância na maturidade e a
maravilha e o mistério que é descobrir que "...o fim de
nossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos e conhecê-lo,
então, pela primeira vez" , como disse T.S.Elliot.
Assim foi meu
primeiro encontro com Fernando Sabino: um encontro através
de suas idéias, de suas palavras escritas, de uma de suas
histórias.
Os anos se
passaram, quando outro tipo de encontro se deu. Estava em
Nova York, na passagem de ano, deslumbrada pelos enfeites
natalinos que ainda ornamentavam a cidade e pela neve que
caía em plena metrópole, margeando as calçadas.
Já havia estado
em Nova York, um ano antes, mas em pleno verão. Em dezembro,
eu me deparei com uma paisagem totalmente diferente, era
como se estivesse em outra cidade...
O encontro com
Fernando Sabino se deu no restaurante do hotel em que
estavámos hospedados. Não foi um encontro entre uma leitora
e o autor, foi um encontro entre brasileiros que estavam
longe de casa.
Quem já viajou
para outras terras e encontrou brasileiros, sabe bem como é
este encontro. Não interessam muito os nomes e a
posição social. O que parece ser mais importante é a
irmandade da terra de origem. As pessoas parecem que já se
conhecessem umas as outras, as fronteiras se mostram mais
flexíveis e o contato entre elas é mais espontâneo.
Houve um trocar
de dicas sobre a cidade e suas atrações, conhecimento que
parecia rotineiro para Fernando Sabino, tão familiarizado
com a vida "novayorkina".
Durante o tempo
restante em que fiquei lá, voltamos a nos encontrar
acidentalmente, em outras situações. Descobrimos que
voltaríamos no mesmo dia para o Brasil, fato que foi adiado,
devido a uma forte nevasca que caiu sobre a cidade, vestindo-a
de noiva, com um lindo branco virgem, mas que também impedia
o funcionamento normal dos aeroportos..
Chegando ao
Brasil, tentei ligar para o telefone que gentilmente me dera.
Queria convidá-lo a participar de um encontro com
meus alunos daquela época, para que pudessem ter um contato
pessoal com o autor.
O encontro não
pôde ser feito. Sua secretária me informou que ele estaria
viajando por vários estados para o lançamento de seu próximo
livro. Agradeceu o convite e disse que, quando fosse
possível, entraria em contato comigo.
O tempo
continuou a passar, parei de lecionar e me dediquei somente
ao trabalho clínico. Nunca mais encontrei Fernando
Sabino e nunca mais pude voltar a Nova York.
Ao saber de sua
"partida", lembrei daquele ano, do encontro com a cidade e com
o autor, lembrei de mim mesma anos atrás...
Fernando Sabino
morreu como percebia a si mesmo. Na véspera do dia em
que nasceu, homem e menino se encontraram através do espelho,
ambos reflexos e habitantes de um mesmo ser.