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                 Quando penso no sentimento de felicidade, faço uma fantasia que se assemelha a um mosaico, em que as peças, muito diversas, podem ser dispostas de diferentes maneiras, conforme o desejo de seus jogadores e de acordo com a criatividade que os move a arrumá-las no tabuleiro da arte de viver...  

                Quem não deseja se sentir feliz? Com certeza, todos nós. Entretanto, facilmente esquecemos do quanto isso depende das escolhas feitas, dos valores de vida priorizados por nós, da capacidade de aprendermos a ser flexíveis com as diferenças alheias e honestos com nossos desejos. Sem dúvida, a felicidade alimenta a alma e enriquece nosso contato com o mundo e com os outros. Mas, como crianças caprichosas, não nos conformamos com a sua transitoriedade, queremos viver em eterno estado de completude, sonhamos com o impossível...

           Como cada jogador usa suas peças para vencer, a perda, a frustração de fantasias e a inconstância da vida são rejeitados como fazendo parte da existência humana. Preferimos responsabilizar o outro e o mundo por estarem impedindo que sejamos felizes para sempre.

           Principalmente, no ocidente, o conceito de ser feliz é contaminado pela idéia de que nada deve estar me incomodando, de que nada deve estar atrapalhando meus planos, de que nada me falta, material e espiritualmente...Assim, passamos boa parte de nossos dias lutando para conseguir "chegar a algum lugar", ter alguém ou algo, num movimento contínuo de poder viver, no amanhã, a tal almejada felicidade.

            E se, ao envelhecer, descobrirmos que "ela" estava bem ao nosso lado, no agora que não volta mais, naquilo que tínhamos, no que fazíamos, nas pessoas que encontramos, na possibilidade de poder ouvir, cheirar, tocar, ver e saborear algo, conhecendo a vida, e que poderíamos ter parado para amar, mas que não o fizemos, devido à pressa de alcançar a felicidade?

            Nesse momento, talvez, cheguemos à conclusão de que sempre fomos felizes, mas não nos permitimos sentir o quanto éramos, por termos sonhado demais...

Elisabeth Salgado