Como professora e psicopedagoga, atuações que exerci por vários anos, sempre considerei muito prematura a faixa de idade em que o jovem adolescente é levado a escolher sua profissão.

   Aos 16 e 17 anos, o jovem que nem se conhece direito, quanto às suas preferências e à sua própria identidade, tem que optar por uma carreira, mas sem ou com muito pouco suporte para lidar com o "escolher", com o medo de errar e de se arrepender, com a dificuldade de arriscar e, por vezes, com a oposição do desejo familiar.

   Já, há alguns anos, desenvolvi um projeto de orientação vocacional, de um modo muito despretencioso, em seu início, mas que se baseia na minha prática como gestalt-terapeuta, terapeuta sistêmica e no que aprendi junto aos jovens adolescentes a quem ensinei ou atendi, como professora e psicopedagoga.

   Como eu já disse antes, o projeto começou de um modo experimental e saindo um pouco dos padrões dos testes e avaliações tradicionais.

   Este artigo é fruto do resultado muito positivo que tenho obtido, junto aos jovens que me procuraram, durante sete anos.

   Cada jovem que chega é conscientizado de que orientação vocacional não se resume unicamente à escolha de uma profissão ou a obter informações e pré-requisitos sobre o exercício da mesma.

   É antes de tudo um momento importante de passagem para a fase adulta, onde "aprender a escolher" é uma condição fundamental no processo de maturação, pois envolve trabalhar o medo de errar, o aprender a perder, aceitando que não se pode ter ou ser tudo e a necessidade de rever crenças e preconceitos, mediante um cenário atual de grandes e amplas reformulações a nível familiar e sócio-econômico.

   Durante todo o projeto, reforço junto ao jovem as características contemporâneas de um mercado globalizado, que se caracteriza por mais de um tipo de regime de trabalho, além de constantes mudanças, como o surgimento, a todo momento, de novas profissões e tendências na área de especialização.

   Em paralelo, o jovem deve ser esclarecido sobre o perigo de supervalorizar a máquina e a tecnologia, pois, neste século, o profissional para ser diferenciado não deve saber fazer apenas, mas ser pricipalmente criativo e capaz de trabalhar em equipe.

    Costumo comparar cada um dos oito encontros, que compõem o projeto, a uma peça  de uma "colcha de retalhos", que juntos vamos bordando, à medida que o jovem vai construindo sua escolha.

   Como acredito em rituais, pelo seu valor simbólico, como marco de uma passagem e aprendizado na vida, inseri, no projeto, um momento vivencial, onde os pais participam de modo enriquecedor e efetivo, junto à escolha feita pelo filho adolescente.

   Com certeza, o apoio familiar nesta fase é de grande importância para o jovem. Mas, é bom lembrar que apoio não é dar respostas prontas, não é dirigir a vida do adolescente de modo a que ele adote a nossa verdade; é, sim,  lhe dar suporte para que compreenda que o processo de escolha deve ser um momento solitário e especial.

   Neste momento, então, as vozes daqueles que o amam e torcem por ele ficarão mais fracas, dando lugar à fala que ele carrega dentro de si e que irá refletir suas necessidades e desejos reais e conseqüente assumir de responsabilidades pela escolha realizada.

                                                      Elisabeth Salgado