Há um tempo atrás, fui entrevistada pelo "Topbaby" sobre o início do afeto entre crianças e resolvi expandir um pouco o tema no "Encontrando Você".

          Como falei em outro artigo, o berço do afeto reside nos primeiros contatos entre mãe e seu bebê, na maneira amorosa como a criança se sente cuidada, desde o simples trocar de fraldas ao ritual da hora do banho, bem como o quanto de caloroso é o contato corporal entre eles.

         Segundo Piaget, o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social andam sempre juntos.

          Inicialmente, a criança sente o mundo e principalmente a mãe como algo que é extensão dela mesma. Por volta dos dois meses, ela já começa a sorrir socialmente, chora e reage à voz da mãe.

         Por volta de uma ano e meio, a criança começa a pensar e já fala. Os sentimentos de confiança e desconfiança caracterizam esta fase.

           Entretanto, até os seis anos mais ou menos, ela tem um comportamento essencialmente egocêntrico. Vê o outro e o mundo que a cerca como instrumentos que lhe sejam úteis de alguma maneira. Ainda não é capaz de realmente perceber o outro com desejos e necessidadess próprias e diferentes das que possui.

          O uso da linguagem vai permitir-lhe uma troca de informações, mas o diálogo é quase  inexistente. Mesmo quando brinca em conjunto com outras crianças, fala para si mesma, sem que haja um real interesse pelo que as demais dizem.

          O interagir da criança de dois a três anos será marcado por sentimentos de vergonha e dúvida, enquanto que aos quatro e cinco anos, ela já internaliza o  sentimento de culpa.

         Será por volta dos seis a sete anos, mais ou menos, que ela vai adquirir um sentido de justiça, terá maior auto-controle de seus impulsos, com um aumento do sentimento de empatia pelos outros.

        É nesse momento que seu interesse pelas outras crianças cresce consideravelmente; ela quer ter amigos e se enturmar.

       Por outro lado, a afetividade que antes era centrada no meio familiar, vai se expandir pelo aumento das relações sociais próprias desta fase. O outro começa a ser visto como alguém separado dela.

       Acredito que a criança adquire em seu meio familiar os modelos comportamentais que adotará para se comunicar. Os pais serão sempre seus grandes professores na arte de viver e de conviver.

        Se tiver pais acolhedores e seguros, que se respeitem e saibam também dar limites, terá maiores chances de se dar bem na relação com os demais.

      Por outro lado, pais brigões geram filhos brigões ou filhos medrosos.

        Como foi dito, o despertar da amizade nasce a partir do nascimento, a partir do momento em que o bebê é aceito, amado e desejado pelos pais e familiares.

         Filhos únicos ou não, as crianças precisam conviver com outras crianças para desenvolver habilidades sociais.

          Entretanto, os pais não devem sair correndo para socorrer seu filho diante de um conflito. Devem, sim, estimulá-lo a arrumar soluções, a negociar e a colocar-se no lugar do outro, pois assim estarão trabalhando sua autoconfiança.

           A partir dos quatro ou cinco anos, os pais devem convidar amigos para brincar em casa, favorecendo um aprendizado do compartilhar que já pode ser iniciado.

          Por outro lado, é importante não forçar a criança a estar com outras, nem a ceder sempre seus brinquedos, obrigando-a a ser "boazinha".

          Se ela quiser brincar sozinha, às vezes, deve ser permitido, pois estar junto deve estar ligado antes de tudo ao seu desejo e segurança, e não a uma obrigação.

          Como tudo nesta vida, também o "fazer amigos" depende de prática e de aprendizado, de orientação, exemplo e paciência por parte daquele que educa uma criança.