Uma vida criativa é uma vida que promove relações, promove compreensão, promove encontro e promove união. O ser humano, ser relacional por definição, estabelece vínculos significativos entre realidades aparentemente distantes. Encontrando afinidades íntimas entre coisas e pessoas, recria a realidade. Recriar a realidade consiste em operar novos modos de unidade em diferentes planos da existência.

Mas, em que consiste a criatividade conjugal? O que é, afinal, o casamento criativo?

Com certeza, o casamento criativo se distancia da caricatura de casamento como nós a conhecemos, quando nos deparamos com experiências conjugais marcadas pelo medo, pelo egoísmo, falta de verdadeiro diálogo, sadismo, sofrimento, pelo comodismo que tolera tudo, pelo fingir que nada vê.

O casamento criativo está longe de se apoiar nas aparências, onde a "união" deste casal é puramente exterior, formal, periférica. Marido e mulher vivem sob o mesmo teto, têm relações sexuais, mas não uniram as suas vidas, não criaram um âmbito de encontro e de amor entre eles, não criaram uma unidade real.

A criatividade aparece no casamento quando o casal consegue, pelo respeito mútuo e pela vontade de continuar junto e não pelo mero precisar estar, um estado de contínuo cuidado e construção do afeto.

Como dizia Nietzsche, “onde não há criatividade, cresce o deserto”, sendo assim, o casal criativo faz nascer um jardim que, como tal, pode conter flores e espinhos.

O casamento criativo é fruto de um ajustamento, de um aprender a conviver com as diferenças, de um superar de dificuldades, sem acusações e culpas. É desistir de usar o outro, dando lugar a uma serena aceitação do outro, conhecendo-o e suscitando um projeto comum de vida.

A criatividade não é uma sucessão ininterrupta de sucessos. A dificuldade está presente, as limitações existem, os conflitos são uma realidade, há problemas, há períodos de incerteza, de infecundidade, mas tudo isso não assusta o ser criativo. Todo relacionamento experimenta atritos e conflitos, que devem ser encarados como oportunidades para uma luta corajosa em busca de novas coerências, da unidade, da felicidade, do crescimento pessoal.

O verdadeiro fracasso de uma pessoa criativa está no momento em que ela desiste.

Um casamento criativo não é um casamento em que as coisas se resolvem num passe de mágica. Tirar da cartola o “nós”, em lugar do ”é” apenas, requer trabalho e coragem. A criatividade está marcada pela aventura, pelo abandono do orgulho que inibe a capacidade criativa e a capacidade de recriar caminhos.

A criatividade no casamento é aliada da amizade e torna-se incompatível com o orgulho, a vingança, a mágoa, a indiferença e o desejo de dominar e manipular.

A criatividade no casamento só aparece quando há capacidade de perdoar tanto a si mesmo quanto ao outro, para poder recomeçar e permitir que o novo surja na relação.

Elisabeth Salgado