Olho meus netos, crianças pequenas, muito
pequenas ainda, riquezas que a vida me trouxe,
embora saiba que eles não sejam meus, sejam do mundo.
O dia da criança, mais uma data instituída,
chega e eu não quero poemas ou frases feitas
para “olhar” o ser criança.
Não vou olhar como mãe, vou olhar deste novo
lugar, o lugar de avó.
Outro dia, li uma frase muito “fofa” que definia
os avós, assim:
uma avó é uma mãe com açúcar e um avô é um pai
com doce de leite.
Realmente, como avó, olho a criança de um jeito
diferente que não inclui mais ou menos amor do
que senti por meus filhos, mas que traz mais
compreensão, mais flexibilidade, mais permissão,
mais disponibilidade.
É muito comum os filhos pontuarem que os seus
pais, na qualidade de avós, deixam seus netos
fazerem coisas que não permitiram a eles, filhos.
Por que é que a avó deixa o netinho pular no seu
cangote, dormir na cama entre ela e o avô, se
não permitiu isso aos seus próprios filhos?
Nos dias atuais, não se pode justificar tais
diferenças alegando que os avós estão aposentados, têm
mais tempo livre, são velhinhos e não têm mais
nada para fazer.
Constato essa "inverdade", pois trabalho, adoro
viajar, dançar e ter contato com coisas novas.
Não me sinto aposentada da vida.
Concordo que o olhar de avó é baseado na
predominância da liberdade de amar e não na
responsabilidade de colocar limites e regras.
Avós nunca dizem "depressa", "já pra cama", "se
não fizer logo, vai ficar de castigo", "menino,
não vê que estou ocupada!",
embora, se conscientes, procuram respeitar as
regras colocadas pela mamãe ou pelo papai, se
isentando, de certo modo, do lado castrador e
“desmancha prazeres”.
Olhar a criança como avó
é olhar com mel,
é olhar com mais segurança e maturidade, é não
se prender ao dia 12 de outubro para se tornar
mais presente e dar presentes, não é fazer algo
diferente ou fazer com que ela se sinta
especial.
Com isso, não quero dizer que é um olhar mais
correto do que o dos pais. É um olhar que
reflete um estágio diferente de vida, talvez o
olhar de quem vai se despedindo de uma fase para
voltar a ser criança, na próxima.
A criança é para a avó um presente que a faz
esquecer que outras crianças amadas se foram,
amenizando a saudade.
Onde estão aquelas primeiras crianças amadas?
Você sabe onde...
Estão naqueles adultos atarefados, cheios de
problemas que hoje são seus filhos.
Adultos que têm
sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento,
contas a pagar e, muitas vezes, preocupados com
a necessidade de ganharem mais.
E, não adianta, você procura,
tenta, mas não encontra de modo nenhum as suas
crianças perdidas. Eles, agora, são homens e
mulheres.
Mas, fruto da generosidade da vida, outras
crianças chegam e iluminam sua vida, trazendo
energia, alegria e a sensação ilusória de que
você não está envelhecendo.
Olhar a criança como avó,
apenas avó, é não
tentar repetir nada, é não competir e, sim, se
sentir liberta, mais livre que em qualquer outra
fase da sua vida e poder enfrentar esta etapa
com tranqüilidade, despojada das suas próprias
paixões, tendo-as vencido, estando em paz
consigo mesma e com os demais.
Esta criança-neto é percebida como
um presente e uma chance de exercer a bondade
como uma pessoa que ganhou em sabedoria e
compreendeu o sentido do universo.
Olhar a criança como avó
é olhar as crianças que partiram,
sentir que elas se foram, mas que o amor, este
jamais se foi, pelo contrário, no agora, ele se
expandiu...