Conceder ou não conceder?

 

 

       

       Desde cedo, mesmo os pais mais experientes se deparam com uma questão:

Como dar limites?

      Quando a criança se encontra na fase de já ir para a escola é que a questão do colocar limites se acentua. Se os pais não trabalharam determinados pontos, certamente surgirão dificuldades .

        Mas o que é dar limites, hoje? Sem dúvida é uma tarefa árdua e bem diferente do tempo de nossos avós. Eles, nem de longe, tiveram as mesmas dúvidas que atormentam os pais de hoje. Para eles, criança não tinha querer e ponto final. Mas essa história virou do avesso, em boa parte devido à filosofia do “é proibido proibir” que reinou a partir dos anos 60. Como uma tentativa de expurgo do autoritarismo puro e simples que havia reinado até então, a imposição de limites na infância foi colocada na berlinda, julgada e condenada por especialistas em educação infantil como conduta inadequada. Hoje, entretanto, psicólogos e educadores sabem – e defendem – que as crianças precisam aprender a ter limites. Principalmente porque estabelecer regras e fazer a criança conviver com elas é fundamental para a formação de adultos equilibrados e seguros.

           Ao observarmos o Homem, hoje, principalmente nesse novo milênio, percebemos que o mesmo prima por desafiar os limites da vida e de sua própria natureza.

         Através da Ciência e da Tecnologia, (um exemplo é a clonagem), o Homem questiona os limites de sua existência, tentando ultrapassá-los em nome do tão aclamado progresso. E é nessa era onde o Homem “adulto” luta para controlar a vida, a natureza, onde se convive com o primado do desrespeito às leis e com a corrupção, onde o desejo de poder não aceita limites nem reconhece fronteiras, tirando vidas pela fome, pobreza, guerras, ações terroristas, onde o Homem está perdendo a sua humanidade, é que precisamos educar nossos filhos e mostrarmos a eles que devem respeitar seu semelhante, as autoridades e as normas familiares e sociais..

Sem dúvida é um grande desafio e, por esse mesmos motivos, uma necessidade e prioridade em educação.

             Quando penso sobre limites ou converso sobre esse assunto com pais ou famílias em atendimento, sempre me vem a imagem das águas de um rio. O que seria delas sem suas margens ladeando todo seu percurso? Quando em excesso pela ação da chuva, essas mesmas águas causam inundações e danos ao homem, por não terem o que lhes dê um limite.

          Por outro lado, a água represada e devidamente canalizada gera energia, é útil ao ser humano. Assim, também acontece conosco.

“Tenho isto como uma regra da vida,

qualquer coisa em excesso é ruim.”

                            ( Terêncio, escritor romano )

             Mas, o que é dar limites?

           De um modo didático, mas sem qualquer intenção de oferecer uma receita de bolo, pode-se conceituar dar limites como :

1-É uma maneira de dar segurança à criança e mostrar que você se importa com ela.

         2-Ensinar que existem outras pessoas no mundo e, que sendo assim, os seus direitos acabam onde começam os direitos dos outros. Ensinar que os direitos são iguais para todos.      

3-Dizer sim, sempre que possível e, não, sempre que necessário. Dizer não quando necessário é uma forma de mostrar às crianças que nem tudo é possível, e que a vida é assim, cheia de nãos pela frente.

Dizer “não pode, agora não, espere um pouco” também é uma maneira de criar filhos mais inteligentes. “Uma criança sem limites não desenvolve bem sua capacidade de raciocínio lógico. Seu pensamento fica um pouco caótico. Ela pode até ter um enorme potencial, mas, sem disciplina, seu raciocínio fica esparso e traz poucos resultados”( Wilfred Bion).

 Bion acreditava que um pouco de frustração não faz mal a ninguém. Ao contrário. Sentindo-se frustrada por não ver sua vontade satisfeita a tempo, a criança começa a desenvolver o pensamento na tentativa de atingir seu objetivo. Um bebê engatinhando em direção a uma escada, tendo uma mamãe de sentinela, exemplifica essa teoria. A cada tentativa, o bebê procura um caminho alternativo para chegar lá sem ser barrado. Enquanto tenta driblar os cuidados da mamãe, o bebê, de quebra, está desenvolvendo o pensamento e o raciocínio em busca de soluções práticas para os problemas.

        4-Só dizer não aos filhos quando houver uma razão concreta. Explicar o porquê das coisas e não só aplicar a “lei do mais forte", muitas vezes acompanhada de agressões físicas ou morais.

          5-Mostrar que não podemos crescer, achando que todos no mundo têm que satisfazer nossos mínimos desejos. Isso é preparar a criança para lidar com questões muito importantes a nível de relacionamento: conviver com a diferença e aceitar a realidade, não alimentando expectativas fantasiosas geradoras de constantes frustrações.

          6-Antes de dar e pedir limites, os pais devem ,principalmente, ter e saber dar limites a si mesmos. Não se consegue educar sem coerência, persistência e tolerância.

      Elisabeth Salgado