Um comportamento que se tornou bem mais freqüente em crianças, não só em bebês como em pré-adolescentes, é o transtorno de ansiedade de separação.

         Até a década de 80, havia a crença de que os medos e preocupações durante a infância eram transitórios e benignos. Reconhece-se, hoje, que podem constituir transtornos bastante freqüentes, causando sofrimento e disfunção à criança ou ao adolescente.

        É interessante, portanto, que os pais, principalmente a mãe, saibam mais sobre esta manifestação de medo de seus filhos, aparentemente sem causa concreta, e como lidar em tais situações.

A Ansiedade de Separação é, provavelmente, o transtorno ansioso mais comum em crianças. A característica essencial do Transtorno de Ansiedade de Separação é a ansiedade excessiva envolvendo o afastamento de casa ou de pessoas com forte vínculo afetivo, normalmente a mãe. 

 O medo é uma emoção humana universal e, tanto as crianças e adolescentes, quanto os adultos podem (e devem) experimentá-lo fisiologicamente. O medo até é benéfico na conservação da espécie, na medida em que serve de resposta adaptativa em muitas situações adversas.  Portanto, a simples presença de medo de separar-se da mãe, pai ou qualquer outra figura de forte ligação afetiva não é um sinal de patologia emocional, é um fenômeno normal no desenvolvimento infantil, existindo naturalmente dos 10 meses de idade até a idade pré-escolar. Mas, em outros casos, as reações de medo e ansiedade diante da separação ou perspectiva de separação podem comprometer a adaptação e o desenvolvimento infantil.


         Para o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade de Separação há necessidade de que a ansiedade diante da separação ou perspectiva de separação da figura de mais contacto afetivo (normalmente a mãe) seja exagerada, que a criança apresente algum sofrimento significativo ou algum prejuízo social, escolar ou de outra área importante de sua vida. Portanto, para o diagnóstico é importante que as crianças com ansiedade de separação tenham dificuldades em realizar suas atividades cotidianas normais como freqüentar a escola, ficar ou pernoitar na casa de amigos, ir a excursões ou a outro tipo de atividade fora de casa e, até, manter hábitos de sono normais. Freqüentemente também expressam o medo anormal de se perderem e jamais reverem seus pais.            

Por tais motivos, as crianças com este transtorno experimentam um sofrimento excessivo quando separados de casa ou de pessoas de vinculação afetiva importante, bem como podem sofrer antecipadamente diante da simples possibilidade de futura separação. Quando separadas da casa ou dessas pessoas de vinculação afetiva, precisam insistentemente saber de seu paradeiro e sentem necessidade de permanecer em contato constante, como por exemplo, através de telefonemas repetidos.

Embora teoricamente a Ansiedade de Separação possa ocorrer em qualquer idade, o transtorno é mais freqüentemente diagnosticado na pré-puberdade. Isso porque, possivelmente, em idades anteriores o problema possa ser menos valorizado pela família. A proporção entre meninos e meninas para a Ansiedade de Separação é pouco conhecida, embora alguns estudos epidemiológicos relatem mais casos femininos.

Dos 9 aos 12 anos as crianças costumam suportar mais a angústia excessiva no momento da separação. Os adolescentes com o transtorno entre 13 e 16 anos podem recusar ir à escola e apresentar queixas físicas. Pesadelos sobre separação também são freqüentemente em crianças mais jovens.

Algumas crianças com Transtorno de Ansiedade de Separação sentem saudade extrema e chegam a se sentirem doentes (com febre, diarréia, vômito, etc.) devido ao desconforto por estarem longe de casa ou quando a pessoa de maior vínculo afetivo está ausente (viagens, trabalho...). Outros sintomas incluem preocupação fora da realidade com algo de mal que possa acontecer a si mesma ou aos pais, recusa em ir à escola, relutância em dormir sozinha ou longe dos pais, pesadelos repetidos com temas de separação e queixas físicas (cefaléias, dores de estômago, náuseas, vômitos) nos momentos de separação ou antecipadamente, diante da possibilidade de separação.

 

Ser apegado aos pais é uma característica inata do ser humano. Segundo a teoria da evolução do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), o bebê já nasce com uma série de comportamentos que conquista os adultos, como o riso, o olhar e até o choro. O problema pode surgir quando os pais confundem apego natural com dependência e esquecem que tão importante quanto apegar-se aos pais é aprender a se separar deles.

Por volta dos 2 anos de idade, a criança já é capaz de compreender que o fato de a mãe estar longe não significa ter sido abandonada, mas essa confiança, entretanto, vai depender de como os vínculos foram criados na família. Filhos de mães superprotetoras, por exemplo, têm mais dificuldade para se distanciar da família. Alguns pais acreditam que o "grude" em excesso é prova de que os filhos os amam de verdade e acabam por estimular a sua permanência, ignorando que, agindo dessa maneira, a família não está criando vínculos e, sim, dependência.

Mas, como os pais devem agir nestes momentos?

A orientação que darei é um ponto de partida, pois se os pais não conseguirem uma melhora com estas atitudes, é importante que procurem um profissional especializado, como um terapeuta de família, por exemplo, para que recebam mais suporte e refaçam de um modo saudável o seu próprio lidar com o medo da separação, dentro do sistema familiar.

Os pais, em especial a mãe, devem:

1.Ao sair, se despedir carinhosamente da criança, com um beijo e afeto, mas sem hesitar, fazendo uso de uma atitude firme, para que a saída não se transforme em uma cena dramática, contaminada por culpa e pena.

2.Não mentirem sobre onde vão, se vão demorar ou não, e jamais saírem escondidos. Apesar de ficar incomodada, a criança prefere saber a verdade, pois assim se sente mais segura.

3.Não devem perder o controle e, sim, transmitir segurança, olhar nos olhos da criança e repetir, quantas vezes for preciso, que jamais irão abandoná-la e que ela tem que acreditar nisso.

4.Devem estar conscientes de que a criança até os seis anos de idade não tem noção de tempo, por isso, contar muito antes que irão sair vai gerar mais ansiedade.

5.Terem o cuidado de, em momentos de mais estresse, não dizer que "já não agüenta mais", "que um dia , vai sumir e não vai voltar" etc.

Em resumo, os pais e, em especial, a mãe devem ser sempre sinceros e coerentes, procurando cumprir o que prometem para passarem confiança, e respeitando os sentimentos da criança, colocando limites com amor e ponderação.

Elisabeth Salgado.