O Afeto na Educação

 

 

                    Este artigo nasceu de encontros que realizei com professores  desde a pré-escola até o nível médio. Os encontros foram muito válidos, assim como o tema que surgiu da própria necessidade do grupo docente. Aprendi muito através desses contatos, apesar de meus trinta anos de sala-de-aula. Obrigada, professores!

                    Falar de Afeto na Educação é falar da importância de se atentar para a qualidade de relações que se estabelecem entre professores e alunos e entre professores e as demais equipes da Escola.

                   Tendo como base um olhar fenomenológico e holístico do mundo e dos seres humanos, além de conceitos da Teoria Sistêmica, enfocar a importância do afeto na Educação é ampliar os conceitos tradicionais cartesianos e os ainda tão validados de causa e efeito, e defender uma visão humanística-existencial mais ampla e a crença de que crescemos, nos descobrimos e aprendemos apenas em relação. Viver é "estar e ser com".

                   Não se questiona mais que a afetividade acompanha o ser humano desde a sua vida intra-uterina, até a sua morte, se manifestando como uma fonte geradora de potência e energia, e sendo o alicerce sobre a qual se constrói o conhecimento racional.

                  O que se coloca como fundamental é a importância de perceber o ser humano como um todo, onde sentimento-corpo-razão têm um significado muito maior do que dentro de um enfoque analítico e segmentado de cada parte, além de vê-lo como "um ser em relação" cuja  realidade é  construída no convívio com os demais, sendo ele, portanto, o responsável pela realidade que constrói.

                  Sendo assim, o professor não pode ser visto nem se conformar em ser apenas aquele que ensina e que prepara provas e aulas. Ele é, num enfoque holístico,  antes de tudo, aquele cuja função primeira é educar e aprimorar o aluno como pessoa humana.

                 O professor traz dentro dele toda uma história de vida, todas as influências de seu grupo sócio-econômico, crenças e mitos familiares de pelo menos três gerações, as influências do clima de trabalho que vivencia, sua relação com colegas de trabalho, seu estado emocional, quando entra em sala-de-aula.

                  Por isso a importância de o professor também se avaliar e atentar para o que lhe pertence e que pode estar interferindo na relação com seus alunos e no modo como está exercendo seu papel de educador.

                 Seguindo este enfoque, a aluno também não é só aquele que aprende e é capaz de repetir o que lhe é ensinado. Como declara Charlot:

“Um aluno não é apenas uma criança de tal família, não é apenas o membro de um grupo sócio-cultural. Ele é também sujeito, com uma história pessoal e escolar. É um aluno que encontrou na escola tais professores, tais amigos, tais aulas, e que teve surpresas boas e más. É uma criança cujos pais disseram que o que se aprende na escola é muito importante para a vida ou, ao contrário, que não serve para nada. É uma criança que tem irmãos e irmãs ou não, que são bem-sucedidos na escola ou não, e que podem ajudar a criança ou não, etc..." 

                  Sendo assim, o ensinar é um processo basicamente relacional, onde tanto o professor, como a escola, o meio social, e não só o aluno, são responsáveis pelo seu desenvolvimento, sucesso ou fracasso. 

                   Como se relacionar bem sem afeto? Como se relacionar sem considerar sentimentos, desejos e necessidades, de ambos os lados: daquele que educa e daquele que é educado?

                   A verdade é que, embora o professor tenha alto nível intelectual e grande conhecimento de sua matéria, a maneira como ele se relaciona com seus alunos será a chave do sucesso da transmissão  do que ensina.

                  Respeito pelas diferenças, abandono de pré-conceitos, vontade de aprender e não de exercer poder, saber ouvir, equilíbrio emocional, coerência, clareza de objetivos, saber elogiar em lugar de priorizar os erros, todos são ítens fundamentais na construção de uma relação afetuosa do professor com seus alunos.

                                                                Elisabeth Salgado