Tive que pensar e sentir muito antes de escrever este artigo que teve origem em um pedido feito por uma visitante do site, que perdeu sua filha única, ainda pequena.

    Já comentei em outro artigo, "Trabalhando Perdas", todas as etapas que envolvem o processo de luto, em uma perda.

     Na realidade, pude falar disso porque perdi e tudo que lá foi dito fazia sentido.

   Entretanto, falar sobre a perda de um filho é falar de algo incomensurável para mim. Repensei minha vida e o aborto espontâneo que tive, com quatro meses de gravidez. Lembro que, quando isso aconteceu, chorei muito e tive que lidar com uma sensação de vazio, culpa, remorso e tristeza. Quando soube que era um menino, minha fantasia cresceu, ao imaginar como ele teria sido. Acho que doeu mais, então.

    O tempo passou, engravidei novamente, e acolhi esta gestação de uma forma bem mais madura e segura, como resultado do que aprendi com a perda que tivera.

   Mas, eu não cheguei a carregar aquela criança nos braços! Não a amamentei, não vi seus primeiros passos nem ouvi suas primeiras palavras. Não me perguntei sobre o que fazer com o “quarto vazio”. É diferente, muito diferente...

   Por isso foi difícil atender ao pedido que me foi feito, pois só pude pensar em quanta dor deve sentir a mãe e o pai que perdem seu filho.

   Resolvi escrever, com base nas perdas que já tive e no que percebi, ao tratar de famílias que traziam sua dor perante a morte de um filho ou de outro ente querido, e de pessoas que sofriam por terem sido abandonadas, traídas e devido à perda maior: a perda do amor levado pela morte.

    Não adianta negar: na vida, a alegria e a dor andam juntas. Mas, não nos ensinam a lidar com a dor e com as perdas. A sociedade nos cobra uma postura constante de vitória, os ganhos são comemorados e desejados, temos que estar pra cima, pois ninguém pode perder. Que bom seria que nada perdêssemos... Saúde, amores, afetos, confiança, emprego...

   A vida não é justa! Isso é uma fantasia que quanto mais tiver o nosso investimento, mais nos tornará incapazes e frágeis, ao lidarmos com as perdas inerentes a todo ser humano. A justiça reside em cuidarmos de nós e fazermos o melhor que pudermos.

   Por outro lado, embora a perda de um filho implique num tipo particular de luto, a intensidade da dor vai variar de acordo com o momento em que se encontra a família (ciclo vital), como está a relação entre os pais, a relação prévia entre pais e filho, a idade do filho morto e as circunstâncias da perda.

  Com certeza, o impacto da morte de um filho jovem, na adolescência, será diferente, quanto aos sentimentos e conflitos, do que na morte de um filho com deficiência, em abortos naturais ou provocados, em caso de filho natimorto ou em mortes infantis inesperadas e repentinas.

   Entretanto, em qualquer um dos casos, haverá dor e não se poderá evitar o sofrimento e a necessidade de vivenciar um período de luto para poder continuar.

   Em qualquer um dos casos, será muito importante e necessário o acolhimento e o apoio de parentes e amigos próximos, seu carinho, seu abraço, sua escuta, seu colo e, principalmente, sua compreensão perante nossa dor e revolta, permitindo que se passe e sinta tudo que faz parte deste momento de luto e despedida.

   De nada vão adiantar, embora bem intencionadas, frases como ”não chore!”, “reaja!”, “foi melhor assim”, “daqui a algum tempo, você engravidará novamente” ou “reaja, você não foi a única (o) que perdeu um filho...”

   Ninguém pode dar o que não possui. Quem perde, precisa de um tempo para si. Tempo, este grande “enfermeiro eficiente”, como foi chamado por Lya Luft, em seu livro ”Perdas e Ganhos”.

   Podemos ouvir, telefonar, enviar uma oração, abraçar, fazer uma visita, mas não esperar que isto traga alegria, até porque, será buscando recursos dentro de si mesma que a pessoa poderá resgatar sua vida, em algum momento, e descobrir que é possível viver com o luto.

   A perda de um filho abala não só o indivíduo (anorexia, distúrbios gastrointestinais, perda de peso, insônia, cansaço excessivo, choro, palpitações, estresse, perda do desejo sexual, falta de energia, retardo psicomotor, respiração curta), mas também o sistema familiar e, em especial, o casal.

   O casamento sofre um grande impacto com a perda de um filho e as características do relacionamento obviamente serão afetadas pela maneira como cada um dos parceiros expressa sua dor.

   O luto dos pais é freqüentemente misturado com raiva e culpa, bem como a sensação de terem sido injustiçados ou de auto-reprovação por sua inabilidade em impedir a morte. A comunicação tende a complicar-se, pois a mãe pode se sentir sozinha em seu luto, enquanto o pai pode se ver lutando para conter sua dor, a fim de poupar o sofrimento da esposa.

   Estas tentativas de evitar o sofrimento do outro, por muitas vezes, gera um distanciamento tão grande nos casais, que não é incomum ocorrerem separações após a perda de um filho.

  Vendo o casal, observa-se que, inicialmente, podem chegar a vivenciar uma espécie de entorpecimento que dará lugar, após um tempo, a muita hostilidade, com acusações mútuas de omissão nos cuidados do filho, principalmente se este era criança ainda.

  O casal precisará também de um tempo para fazer seu luto, sem receio de expor o que sente e de compartilhar sua dor. Uma reação freqüente em casais novos é procurar ter outro filho logo, como se fosse possível não ter que lidar com a dor da perda e com a sensação de vazio. Esta conduta não é funcional, pois o filho substituto irá receber uma carga de ansiedade e de expectativas prejudiciais, se o luto não tiver sido resolvido.

   Embora a dor não nos permita, por vezes, perceber, a morte faz parte da vida e, segundo Lya Luft, é “ela a grande personagem, o olho que nos contempla sem dormir, a voz que nos convoca e não queremos ouvir, mas pode nos revelar muitos segredos. O maior deles há de ser: a morte torna a vida tão importante! Porque vamos morrer, precisamos dizer hoje que amamos, fazer hoje o que desejamos tanto, abraçar hoje o filho ou o amigo. Temos de ser decentes hoje, generosos hoje ... devíamos tentar ser felizes hoje. A morte não nos persegue: apenas espera, pois nós é que corremos para o colo dela. O modo como vamos chegar lá é coisa que podemos decidir em todos os anos de nosso tempo.”

    Como acredito que nada é por acaso, estou escrevendo este artigo a alguns dias do Natal. Maria viu seu filho nascer e, depois, morrer novo ainda e de maneira muito dolorosa. Cada um tinha sua missão e a cumpriu. Natal é alegria, é união e acolhimento, mas, na vida, há sempre o momento da alegria e o momento da dor. Assim, foi com Jesus e Maria. Assim é com todos nós.

    Sempre haverá luz na escuridão!

Elisabeth Salgado

 

 

 

 

 

 


A Perda de um Filho