A  Disciplina Interativa

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                         Com o passar dos anos, o professor e a Escola vêm presenciando e sofrendo os efeitos de fortes mudanças no contato com os alunos e com suas famílias.

                         Hoje, o grande desafio dos professores é lidar com problemas comportamentais dentro da sala de aula, que atualmente começam na idade pré-escolar. Por vivermos em uma sociedade com constantes transformações na esfera familiar, a cada dia nos deparamos com problemas comportamentais que começam a cada dia mais cedo e são mais difíceis de serem contornados. 

                        Não adianta negar, a realidade da sala-de-aula hoje é outra, bem como devem ser os meios que o professor e a Escola utilizam para manter a disciplina de seus alunos.

                        Atualmente, o educando, ao ingressar na vida escolar, traz consigo o início de sua história pautada nos hábitos e costumes vivenciados no sistema familiar. Enquanto cresce, vai acumulando uma gama de informações que o  impulsiona cada vez mais a questionar a ação educativa desenvolvida na escola. Na sociedade,  as crises se sucedem concomitantemente com o avanço tecnológico e este, cada vez mais, permite ao indivíduo acessar amplamente o conhecimento, instigando-o, assim, a ser mais ativo e, por conseqüência, a desenvolver em si o senso questionador e crítico.

                          Portanto, numa época de mudanças sócio-culturais, em que tanto a estrutura familiar como os meios de comunicação facilitam e estimulam as crianças a se posicionarem, a questionarem o que as rodeiam e lhes fornecem uma variedade de estímulos, dificilmente nos depararemos com uma imagem idealizada de alunos passivos, obedientes, mero ouvintes submissos às nossas orientações e regras. Este tempo acabou!

                          Sem dúvida, a concepção de infância e família modificou-se e com ela a nossa perspectiva do que seja ensinar e aprender. Fruto disso, torna-se importante um redimensionamento das relações de saber-poder no espaço escolar.

                          Como conseqüência dessas mudanças, também as relações entre professores e alunos, muitas vezes refletem um estado de alienação. O professor espera que a classe faça silêncio para poder dar aula; o aluno quer logo ir embora e receber a nota; a direção não quer problemas e os pais querem que o filho seja aprovado objetivando a ascensão social.

                          Não adianta só culpar a família como origem da falta de limites e disciplina. O professor deve ter em mente que o problema é bem mais complexo. Além dos componentes familiares, há as influências da mídia em geral.

                         Entretanto, a discipina continua sendo muito importante e necessária, bem como estabelecer uma hierarquia bem definida de papéis em sala-de-aula. Concordo que, sem disciplina, não se pode fazer nenhum trabalho pedagógico significativo e que é fundamental mostrar os limites, mas sem esquecer de também focar as possibilidades.

                         Como diz Celso Vasconcellos(1994), "o que seria de uma orquestra, se cada músico tocasse o que quisesse? Se não houvesse disciplina? Ela é necessária, mas...deve ser analisada como um meio e não um fim."

                         A "disciplina interativa", a meu ver, é uma chave que possibilita a abertura de uma nova porta. É um recurso mais adequado ao momento educacional que vivemos, pois ela não é repressora nem companheira de uma educação baseada no poder e na coação. Ao mesmo tempo que estabelece limites, estimula a maturidade, independência e critividade de nossos alunos.

                         Mas, o que se entende por "disciplina interativa"?

                        É a disciplina resultante de um processo de construção, contando o mais possível  com a participação dos alunos, e não originária de uma mera imposição, para que seja consciente e interativa em sala de aula e na escola. É bom lembrar que por mais razoáveis que sejam os procedimentos, se colocados como imposição, são externos à conduta de qualquer educando, e portanto serão muitas vezes rejeitados.

                       Na "disciplina interativa", o aluno deve ser envolvido na tomada de decisões e estabelecimento das regras, durante a resolução de problemas já ocorridos ou em antecipações a problemas que possam vir a ocorrer. Desse modo estaremos incentivando nossos alunos a refletirem sobre a necessidade de elaboração de regras e construindo competências para que os mesmos reconheçam a sua necessidade e possam agir com autonomia.

                      O papel importante do professor é agir como mediador e orientador, clarificando a filosofia da escola e evitando atitudes de conflito, alertando os alunos sobre a necessidade de refletirem sobre os procedimentos comportamentais de cada uma das regras elaboradas para que as mesmas se cumpram.                 

                       O professor deve estar atento para que as regras não resultem apenas em um conjunto de "nãos". A preocupação maior deve ser sempre educar! As regras não devem ser vistas primordialmente como proibições e sim como soluções para problemas de convívio dentro dos grupos.

                       Sei que em uma escola tradicional, qualquer movimento de mudança na área disciplinar é considerado difícil, ainda mais quando envolve a relação com grandes grupos. Entretanto, o processo pode ser gradual, inicialmente experimental com algum segmento  e, mediante ajustes de acertos e erros, ser passado para os demais níveis, até fazendo uso do próprio depoimento de alunos envolvidos.

                       A "disciplina interativa" se caracteriza por condutas de participação, respeito, responsabilidade, construção de conhecimento, formação do caráter e de cidadania, já que os alunos que construíram as regras para resolverem problemas do seu convívio escolar, poderão ser incentivados a levar essa experiência para sua vida social, resolvendo os problemas do dia a dia. Desse modo, estamos colaborando para a formação de cidadãos conscientes e conhecedores de seus direitos e deveres.

                                                                                 Elisabeth Salgado